Otaku:
Os filhos do virtual
Comprei esse livro por indicação do ótimo blog sobre anime,
mangá e cultura japonesa em geral Sushi Pop. O livro é uma reportagem investigativa
do jornalista francês Étienne Barral sobre o que ele chama do nascimento do Homo
virtuens.
O livro coloca os otakus no contesto de uma sociedade rica
e altamente competitiva como a japonesa. O autor parece se sensibilizar com
alguns otakus, mas também aponta alguns defeitos como não querer melhorar a
aparência e não se esforçar para ter amigos.
Por outro lado, ele consegue ver que muitos otakus são
artistas genuinamente talentosos. Em um dos capítulos é descrita uma escultura
inspirada em Devielman que impressionou bastante o autor pelos detalhes. Outro
caso é do colecionador de bonecas que reproduz com perfeição a cerimônia do
chá, criando uma boneca muito delicada.
O autor também dá a entender que as paródias criadas pelos
otakus seria um ato de rebeldia contra o sistema que tenta impor seus gostos,
mas o otaku estabelece o próprio gosto quando produz seu fanzine (doujinshin),
sua maquete ou boneca.
O senhor Barral também faz um breve comentário sobre o Yaoi/BL
que é um tipo de mangá erótico/pornográfico envolvendo relações homossexuais
entre homens voltado para o público feminino heterossexual. Também existem
mangás e fanzines para homossexuais masculinos e são chamados de Bara.
E nada tem a ver com o fã militante de Twitter, que na
verdade é fã de militância e não das obras em si.
O autor também faz um paralelo interessante sobre a relação
entre a mãe e o filho na sociedade japonesa e mostra como o pai é quase um
desconhecido para a criança. Ainda na visão do autor há uma relação quase doentia
com essa mãe, algo um pouco diferente do complexo de Édipo ocidental.
O capítulo sobre a Comicket, a maior feira de
fanzines(doujinshin) é muito interessante. Nele, o senhor Barral explica que
até o final dos anos 90, apenas amadores participavam dessa feira e como as
grandes empresas detentoras das obras forçaram a participação no evento.
O autor cita o caso de uma autora de Yaoi/BL que foi
processada criminalmente por comercializar as histórias dela sobre personagens
de videogame.
Entretanto notei que o senhor Barral deu muita ênfase ao
lado erótico da criação otaku. Mas também não poupa críticas à sociedade
japonesa, que segundo ele reprime violentamente o individuo em detrimento do
grupo e relata caso terríveis de Ijime, o Bullying japonês. Um dos casos me
lembrou muito um episódio de Além da Imaginação que eu já comentei aqui,
chamado O Exame e um conto de George Orwell, se não me engano se chama Para
matar um elefante.
Nos últimos capítulos o autor entra em detalhes de outro
caso que deixou os otakus malvistos pelos japoneses em geral, o ataque com o
gás sarin no metrô de Tóquio.
O senhor Barral conta em detalhes como a mídia explorou o
caso e como a seita ganhou garotas adolescentes como fãs e até chegou a ter
material sobre a seita vendido na Comicket.
Eis uma pequena dica de livro muito interessante para fãs e
não fãs de animação japonesa e afins.
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